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Meus pensamentos não corriam tão rápido quanto o carro onde eu estava, eles vinham de maneira lenta a fim de me lembrar de detalhes. Passava tudo: Lembranças da minha infância, do primeiro dia na escola, dos grandes amigos, dos que já se foram e tantas outras coisas que poderiam encher esta página. Mas uma mereceu destaque: Uma ligação que tinha recebido uma semana atrás de um desconhecido fazendo uma estranha proposta. Não tinha pensado naquilo tanto quanto naquele momento. Talvez porque o prazo para a minha resposta esgotava-se no dia seguinte, de acordo com homem que não tinha revelado seu nome durante a ligação.
Voltei à realidade coma fala do Rafael, que dirigia o carro:
-Ei! Carlinhos! Ta dormindo rapaz?! Tá com a cabeça aonde, meu chapa? Levanta que já estamos chegando...
Quando me levantei do banco do veículo, vi que já estava a algumas quartas da minha casa. Tentei me desfazer do estado de lerdeza o mais rápido possível, visando não atrasar a outra viagem que já estava destinada á Rafael.
-Até mais! Quando quiser uma carona nesse horário é só me ligar, valeu? Tchau! – falou Rafael com a sua jovialidade de sempre.
-Tá bom...Obrigado cara...Tchau... - respondi não muito animado.
Abri a porta de casa querendo poupar todas as minhas forças, pois a viagem tinha me consumido bastante. Abri a geladeira em busca de algum petisco e deitei-me no sofá depois. Após zapear procurando algum programa interessante (que é uma tarefa quase impossível atualmente), voltei a refletir na proposta que o misterioso homem tinha me oferecido.
Era uma coisa que passava longe da dignidade ou da nobreza, uma coisa realmente suja. Mas o que não saía da minha cabeça era a quantia que estava envolvida. Era muito dinheiro, e como eu estava em apuros financeiros, a proposta tornava-se numa coisa mais e mais tentadora. Outra vez fui interrompido. Agora pelo som do telefone. Levantei-me com bastante esforço após lançar algumas pragas. Caminhei lentamente até a mesa do aparelho, a uma distância mínima para pegar o fone.
-Alou?
-Quem fala?
-É o Carlos. Quem deseja? – perguntei maquinalmente.
-Reconhece minha voz? – Aparecendo uma voz abafada.
Subitamente mudei do meu estado de dar pouca importância à conversa e passei a me concentrar mais naquele diálogo que tornara-se interessante naquele momento.
-Ah sim... é claro... – respondi.
- Lembra de mim, senhor? – perguntou a fim de ajudar minha memória.
- Claro que sim. O senhor me fez a uma proposta dias atrás...
- Isso mesmo. Quero saber se o senhor aceita a mesma – respondeu a sujeito com seriedade.
-Ah, mais é claro... Espere só um minuto, sim? – respondi meio inseguro.
Voltei a pensar na tal proposta. Dizer sim ou não? Dependendo do dinheiro, sim. Dependendo da minha dignidade, não. Valeu mais a minha cobiça.
-Bom, já decidi. Aceito a proposta – respondi decidido.
- Muito bem... Digo-lhe que escolheu a melhor alternativa, para o seu próprio bem.
- Quero que saiba que fiz estritamente pelo dinheiro – adverti-o.
- Claro... Todos dizem isso, mas no final eles mudam... – disse o homem com a tonalidade mais sinistra até aquele momento.
Não dei muita atenção àquela resposta e caminhei para a questão que mais me interessava:
-Bom, queria saber qual o seu nome e se o senhor tem algum superior envolvido nesse caso – falei decidido.
- O senhor parece ser muito esperto... Pelo menos mais esperto que os outros. Mas nada vai se revelado antes do fim da tarefa. Bom, todos os pormenores já foram dados ao senhor, espero que tenha sucesso. Não falarei mais nada além disso. – concluiu, antes de terminar a ligação rudemente.
Fiquei alguns momentos parado com o fone aconchegado no rosto, refletindo se era mesmo certo o que tinha feito. Mas como já estava cansado com aquele assunto, pois ele dominara meu dia todo, decidi ir para a cama, a fim de ter algumas horas de descanso raro.