12 Agosto 2006
Rumo ao futuro improvável
Ainda imagino um futuro nosso. Todos nós vivendo numa casa toda nossa, sem nenhuma autoridade por perto. Pode ser até um apartamento minúsculo, com a nossa própria decoração, com enormes caixas de som, armários cheios de livros, uma televisão grande pra perdermos o nosso tempo, muita comida rápida e enlatada. E ainda com um quarto lá no fundo, no fim do corredor, com isolamento acústico, cheio de guitarras, baterias, baixos, sintetizadores e com uma mesinha de centro cheia de pó branco (calma, é só açúcar pra repor a glicose).
E a comida? Quem estiver disposto a fazer miôjos ou pedir uma pizza será bem vindo. Refrigerante na mesa junto com salgado pra assistir ao futebol de domingo. Uísque e afins na hora de se esfregar no sofá e refletir sobre a arte de não fazer nada. Conversar sobre qualquer coisa em qualquer hora em qualquer dia. Todos sem empregos, sem obrigações, apenas lembrando o que é viver sem ter que seguir a linha considerada certa pela maioria, a mais sem graça e mortal de todas.
Venham todos para esse sonho, sem faltar ninguém. Mas venham de mentira. Venham assegurar minha dúvida de que não temos a mínima chance de mudar as resoluções mais óbvias das nossas vidas. Espero vocês sabe-se lá onde. Talvez na minha cabeça, nas minhas viagens antes de dormir. Aos desacreditados de tudo isso, boa noite. Aos esperançosos, boa noite também.
"Escolha viver. Escolha um emprego.
Escolha uma carreira, uma família.
Escolha uma televisão enorme.
Escolha lavadoras, carros, CD players e abridores de latas elétricos.
Escolha saúde, colesterol baixo e plano dentário.
Escolha uma hipoteca a juros fixos.
Escolha sua primeira casa. Escolha seus amigos. Escolha roupas esporte e malas combinando.
Escolha um terno numa variedade de tecidos.
Escolha fazer consertos em casa e pensar na vida domingo de manhã.
Escolha sentar-se no sofá e ficar vendo game shows chatos na TV comendo porcaria. Escolha apodrecer no final, beber num lar que envergonha,
os filhos egoístas que pôs no mundo para substituí-lo.
Escolha o seu futuro.
Escolha viver."
Do filme Trainspotting