14 maio 2007

Menos delicado que um elefante

Olhou em volta. O lugar estava cheio. Vários corpos se remexiam enquanto a música animada continuava sem parar. Não gostava daquilo tudo. Preferia a cerveja que estava na mão. Líquido dos deuses. Talvez não de deuses. Apenas a água que tomava todos os dias. Procurava e procurava. Achou um alvo interessante. De vestido curto. Muito curto. A carne estava sufocada, pedindo para tomar um ar. De um tom bronzeado bem natural. Limpou a boca com as costas da mão.

- Olá.
- Oi.

Apertou a coxa esquerda. Depois a direita.

- Que é isso?
- Material de qualidade...
- Eu te conheço?
- Pode conhecer hoje à noite na minha cama.
- Você é maluco ou outra coisa?
- Psicótico procurado pelas autoridades.

A mão continuava na coxa.

- Quer dizer que é assim que você quer conquistar alguma mulher?
- Eu sempre pago. Qual é o preço?
- De quê?
- De você ora.
- Acha que sou prostituta?
- É qualificada para o emprego.

Afinal ela tirou a mão de lá. Quase que já tinha esquecido.

- Pois não sou. E você continua tentando alguma coisa comigo.
- Claro, estou tentando arranjar alguma coisa pra hoje à noite.
- Procure outra. Desse jeito não dá.
- De que jeito dá?
- Do jeito normal. Através da conquista.
- Por favor, me poupe esse tempo. Estamos na era moderna. Menos

conversa e mais ação. Sem aperto de mãos e sim junção de línguas.
- Já estamos nessa conversa faz tempo...
- Por sua causa. Que tal eu fazer uma poesia sobre você ?
- Você escreve?
- Sim.
- Sobre amor?
- Sobre sexo selvagem e sadomasoquismo.
- Que nojo!
- As maiores coxas que eu já vi. Gostou desse título?
- Olha como você me trata. Você é um monstro!
- Vamos lá...
- Esquece...Por que você insiste comigo?
- Tem um corpo de vagabunda que eu jamais vi.
- Sabe de uma coisa?
- Fala.
- Você é menos delicado do que um elefante numa loja de porcelanas.

Olhou em volta. O lugar estava vazio. Nenhum corpo se remexia e nenhuma música tocava. Ele mamava uma garrafa de cerveja. No balcão descansavam outras vazias. Líquido dos deuses? Com certeza não. Só a água que bebia todos os dias.

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