Palavras que não são minhas 1
John Lennon, compositor, cantor, músico, o "pai" dos Beatles, foi assassinado à uma hora da manhã (hora de Brasília) de ontem, por um vagabundo, Mark David Chapman, que disparou nele seis tiros de um revólver 38, acertando cinco. O crime aconteceu no saguão de um dos prédios mais famosos de Nova York, a oeste do Central Park, o Dakota. Chapman esperou por ele horas no saguão, sem ser incomodado pelos agentes de segurança do prédio. Lennon tinha 40 anos, Chapman, de Atlanta, Georgia, tem 25.
A polícia, chamada ao local, apreendeu facilmente Chapman, que largou o revólver depois de esvaziá-lo, sorrindo, certo (e está certíssimo) que do anonimato se tornará, como Lennon, uma celebridade. Esse o motivo aparente do crime. O canibalismo de celebridades é rotina neste país (e no Brasil e todo o mundo ocidental), graças a um sistema de comunicações que evita assuntos sérios, mas que fornece um "circo" permanente, obsessivo, avassalador, sobre a vida dos bem sucedidos e ricos, excitando sentimentos contraditórios, de adoração bocó dos fãs à frustação homicida, que ás vezes se manifesta "a la Chapman".
A nova celebridade, Chapman, está presa. O provável é que passará o resto da vida num manicômio judiciário, vendendo direitos de lhe filmarem a vida, "escrevendo" memórias, vendendo entrevistas etc. Neste país, tudo é faturável.
O canibalismo continua depois da morte. Fãs histéricos cercam o Dakota, cantando músicas dos Beatles. Todo mundo está faturando, de estações de rádio à TV, que tocam incessantemente as músicas dos Beatles e continuam o canibalismo do cadáver. É a sociedade de consumo, em seu aspecto mais grotesco.
A morte de John Lennon é o fim de uma época, talvez a última que conheçamos uma geração de jovens talentosos, como os Beatles, que tentou humanizar o nosso mundo de poderes impiedosos, impessoais e letais.
Com Lennon se foi, não só uma era, nos parece, mas um anseio de simplicidade que se tornaram aparentemente impossíveis ao mesmo tempo.
Paulo Francis


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